não quero mais escrever...
perdi minha vaga lembrança
as coisas não precisam mais de você
digo que eu não preciso mais de você
as estradas cheias e farois indo e vindo
também não...
nem o vento
nem o cheiro do meu perfume
então não quero mais escrever
não preciso mais
preciso de outros olhos
armadilhas em busca do meu cuidado
não quero mais descrever as linhas
sinusas que o meu corpo
fazia junto ao teu...
no calor de mais um abraço qualquer
não vejo mais entre as janelas
o falso sorriso
eu não quero saber o que acontece
da tua saudade, que sei que existe e doi...
não quero o teu parabéns em dia de festa
que aprisiona-me
rondando o meu intimo, minha casa
como os teus dedos em meus cabelos
cravando as unhas, os erros, o dessassossego...
te dei um poder
de sentir que por ti a lua brilha!
mas que poder?
se são pelas minhas mãos
que sai o desenho de um sol mal-feitinho mas que dá essa luz
num papel rabiscado a lapis de cor
das cores que eu quero
que eu escolho e dou forma
te fiz mais do que deveria
de dei o poder da saudade
da rua fria na madrugada
da minha insonia insessante
alicerce de dias arrastados
loucos pela efemeridade dos segundos
ou melhor pela instataneidade
dei a ti o poder de cura de um vicio meu
intransferível...
e só...
teria tudo para deixar teus olhos
teria tudo para dizer-lhes milhares de 'não'
não preciso mais vê-los
e não preciso mais escrever
isso ou aquilo
aqui ou acolá
queria o que não desejar
bastava a rotação ser contraria
ser fácil
como fazer tricor de palavras
enoveladas e mudas
mas não tenho mais palavras
para depositar
na minha caixinha
de letras perdidas...
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