(...)
"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se amava verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.
É porque eu não quis um amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda.
...
É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é.
É porque eu ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.
...
Eu que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrario quero chamar de Deus. Eu que jamais me habituarei em mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse.
Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma...
...com uma terra menos violenta que eu."
...
E que eu use o meu formalismo que me afasta.
(...)
Clarice Lispector - Perdoando Deus in: Felicidade Clandestina
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